O nome Jesus Cristo é composto da
versão grega de dois nomes hebraicos: Jesus, de Joshua, que
significa salvador; e Khristós, de Masiah, isto é, messias.
No tempo de Jesus, a nação judaica
se encontrava numa situação de desgarramento e impotência. Situada
numa zona de tensão entre os grandes impérios do mundo oriental,
perdeu sua independência política desde o exílio da Babilônia, no
fim do século VI a.C., e foi dominada por outros povos até que,
depois de um breve período de independência, caiu em poder de Roma
em 63 a.C. Com a morte de César, Herodes I o Grande conseguiu ser
nomeado "rei dos judeus", sob protetorado romano. Seu reino
foi dividido pelos romanos depois de sua morte, e Herodes Antipas
ficou com a Galiléia e a Peréia. À época do nascimento de Jesus,
a Galiléia era um conhecido foco da resistência judia contra Roma.
Nascimento e infância. Jesus
nasceu em Belém, cidade da Judéia meridional, nos últimos anos do
reinado de Herodes o Grande. Sua mãe Maria, era casada com José,
carpinteiro de Nazaré, na Galiléia. Ambos haviam ido a Belém por
causa de um recenseamento.
Herodes soube do nascimento de Jesus,
considerado pelos magos como a chegada daquele que deveria ser o "rei
dos judeus", ordenou uma matança de todas as crianças "em
Belém e no seu território, todos os meninos de dois anos para
baixo" (Mt 2:16). Mas José, pai terreno de Jesus, advertido em
sonhos por um anjo, tomou o menino e sua mãe durante a noite e
retirou-se para o Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes.
Com a morte de Herodes o Grande, José
decidiu regressar com sua família e estabeleceu-se em Nazaré. Essa
pequena aldeia achava-se num entroncamento de caminhos e era cruzada
pelas caravanas que viajavam para o Oriente. Nela cresceu Jesus junto
a Maria e José, a quem ajudava em seu trabalho artesanal.
Com relação à chamada "vida
oculta" de Jesus, a referência mais explícita é a de Lucas,
que menciona a visita da família a Jerusalém quando Jesus tinha 12
anos. Julgando que o menino estivesse na caravana, seus pais voltaram
e andaram durante todo o dia, até que se decidiram a voltar a
Jerusalém. Depois de três dias de busca, encontraram-no entre os
doutores do Templo, ouvindo-os e interrogando-os. Todos quantos o
ouviam ficavam impressionados com sua inteligência. "Ao vê-lo,
ficaram surpresos, e a mãe lhe disse: 'Meu filho, por que agiste
assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos.' Ele
respondeu: 'Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na
casa de meu Pai?" (Lc 2:48-49).
Quanto aos anos que mediaram entre
esses acontecimentos e a vida pública de Jesus, o próprio Lucas
limita-se a concluir: "Desceu então com eles para Nazaré, e
era-lhes submisso. Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos
estes fatos em seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em
estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens." (Lc
2:52-53).
Vida pública. Costuma-se
distinguir, na vida pública de Jesus, um primeiro período de
"preparação". Os acontecimentos dessa época tiveram
lugar no lapso compreendido entre o outono do ano 27, de acordo com
os cálculos mais plausíveis, e a Páscoa do ano seguinte, e
desenrolaram-se na Judéia e na Galiléia. Ainda de acordo com Lucas,
Jesus tinha então cerca de trinta anos.
Na Judéia, encontrava-se João
Batista, filho de Zacarias e parente de Jesus, que em toda a região
do Jordão pregava o batismo de penitência para o perdão dos
pecados. Jesus foi a seu encontro para também ser batizado, mas
João, que o reconheceu como Messias, queria impedi-lo, dizendo: "Eu
é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?"
(Mt 3:14). Os três evangelhos sinópticos relatam que, no momento do
batismo de Jesus, abriu-se o céu e desceu sobre Jesus o Espírito
Santo sob a forma de uma pomba, ao mesmo tempo em que uma voz
proveniente das alturas dizia: "Este é o meu Filho amado, em
quem me comprazo".
Dentro do período de preparação
contam-se o jejum no deserto, durante quarenta dias e quarenta
noites; o testemunho de João Batista aos sacerdotes vindos de
Jerusalém: "No meio de vós está alguém que não conheceis,
aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar a
correia da sandália." (Jo 1:26-27); e o episódio das bodas de
Caná, primeira manifestação do poder divino de Jesus Cristo.
O primeiro ano da vida pública de
Jesus foi assinalado por vários acontecimentos notáveis: a primeira
expulsão dos mercadores do templo; o colóquio de Cristo com
Nicodemos, notável fariseu, ao qual manifestou-se como Filho de Deus
e anunciou sua morte na cruz; a prisão de João Batista; e o
episódio da conversa com a mulher samaritana -- os judeus não se
relacionavam com os samaritanos -- considerado pelos exegetas como um
prenúncio da universalidade ecumênica do cristianismo.
Passou depois Jesus da Samaria à
Galiléia, e ali deu começo a sua pregação. Rejeitado em Nazaré
-- "nenhum profeta é bem recebido em sua pátria", disse
Jesus na sinagoga --, transferiu-se para Cafarnaum, às margens do
lago Tiberíades ou mar da Galiléia. Foi ali que aconteceu a "pesca
milagrosa" e a vocação dos quatro primeiros apóstolos: Simão
(Pedro), seu irmão André e os filhos de Zebedeu, Tiago e João.
Esses quatro, mais Filipe e Natanael, haviam sido discípulos de João
Batista, que lhes indicou Jesus como "o cordeiro de Deus"
(Jo 1:29,35). Realizou nessa época vários milagres, entre eles o do
paralítico de Cafarnaum, mencionado nos evangelhos sinópticos.
Durante o segundo ano de sua vida
pública, Jesus completou o número dos 12 apóstolos, todos eles
galileus. Também teve lugar por essa época o sermão da montanha ou
das bem-aventuranças, um dos pontos mais altos da vida de Jesus (Mt
5-7; Lc 6). Nesse período foram narradas algumas das mais notáveis
parábolas, com as quais Jesus transmitia sua doutrina ao povo, aos
sacerdotes e a seus seguidores.
A partir de então, os acontecimentos
se precipitaram. Herodes Antipas deu morte a João Batista, e teve
lugar a multiplicação dos pães e dos peixes diante de cinco mil
pessoas. Em seu terceiro ano de vida pública, Jesus ensinou no
templo de Jerusalém e deu testemunho de si mesmo como a "luz do
mundo" e o "bom pastor". Diante de Pedro, Tiago e de
João, realizou o prodígio da transfiguração. Foi também nesse
período que ressuscitou Lázaro e, por fim, na sua última Páscoa,
entrou triunfante em Jerusalém.
Paixão e morte. A paixão de
Jesus, desde a última ceia até a crucifixão e morte, é
minuciosamente relatada pelos quatro evangelistas. Aprisionado no
horto de Getsâmani, Jesus foi levado ante Anás, que era "pontífice
naquele ano", e logo ante Caifás, o príncipe dos sacerdotes,
com quem se haviam reunido os escribas e os anciões. Mais tarde, foi
conduzido à residência do governador romano, Pôncio Pilatos, que o
remeteu a Herodes Antipas. Por um gesto político de Herodes, foi
devolvido a Pilatos, que, embora "não achasse delito nenhum"
em Jesus, depois de fazê-lo açoitar, cedeu à pressão dos chefes
de Israel e de uma multidão incitada por eles, e pronunciou a
sentença da condenação de Jesus à morte na cruz, depois de
declarar-se inocente de seu sangue.
De acordo com as leis romanas, Jesus
foi flagelado e teve que carregar a cruz até a colina do Calvário.
Ali foi crucificado junto com dois malfeitores comuns. Não se sabe o
lugar exato em que se cumpriu a sentença, pois a destruição de
Jerusalém no ano 70 arrasou todo possível vestígio. No momento da
morte de Jesus, de seus seguidores só permaneciam mulheres e João,
o evangelista. José de Arimatéia e Nicodemos pediram o corpo de
Jesus e o enterraram no horto do primeiro. Na manhã do terceiro dia
da morte de Jesus, o sepulcro apareceu vazio. Os relatos, diferentes
em seus detalhes, coincidem em que a tumba foi encontrada vazia e que
Jesus apareceu a várias pessoas e falou com elas. De acordo com
Lucas, comeu um pedaço de peixe à vista dos discípulos assustados.
Segundo os Atos dos Apóstolos, Jesus continuou assim a ensinar aos
discípulos, em aparições ocasionais, durante quarenta dias após a
ressurreição. Depois foi "elevado ao céu". Essa ascensão
simboliza a vitória definitiva do Cristo sobre a morte, e seu poder
universal. Não contradiz a promessa do ressuscitado: "E eis que
eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos."
(Mt 28:20).
Mensagem e significado. Para
os cristãos, Jesus é Deus feito carne, a personificação da
verdade, a revelação e o cumprimento das promessas de Deus. Mas
Jesus era também homem, e por isso seus ensinamentos eram dotados de
uma profunda preocupação com a realidade temporal da humanidade.
Assim, Jesus honrou como divina a lei contida no Antigo Testamento,
mas ensinou aos discípulos que se concentrassem nos dois preceitos
fundamentais: o amor a Deus e o amor ao próximo. Seu nascimento,
morte e ressurreição significavam o início do reino de Deus, que
deveria ser, acima de todo esforço humano, um desígnio divino.
Assim, os ensinamentos de Jesus podem ser resumidos em dois pontos
fundamentais: a exortação a uma vida justa e piedosa e a exaltação
da onipotência divina como instância superior aos atos humanos.
A importância teológica da
humanidade de Cristo foi enfatizada por santo Agostinho de diversas
formas: a humanidade de Jesus Cristo mostrava como Deus elevava o
humilde; indicava a conexão entre a natureza física dos homens e a
natureza espiritual; e era a fundação de uma humanidade renascida,
criada de novo em Cristo como o fora a antiga em Adão.
Posteriormente, a tendência de diversas heresias a enfatizar o
caráter humano de Cristo fez com que as diferentes igrejas cristãs
tendessem sobretudo, sem esquecer o aspecto humano, a ressaltar a
divindade de Jesus. Mas a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, implica
a aceitação do mistério de sua dupla natureza, divina e humana,
que não se confundem mas estão indissoluvelmente unidas.