segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A vida de Jesus - Cristologia


O nome Jesus Cristo é composto da versão grega de dois nomes hebraicos: Jesus, de Joshua, que significa salvador; e Khristós, de Masiah, isto é, messias.
No tempo de Jesus, a nação judaica se encontrava numa situação de desgarramento e impotência. Situada numa zona de tensão entre os grandes impérios do mundo oriental, perdeu sua independência política desde o exílio da Babilônia, no fim do século VI a.C., e foi dominada por outros povos até que, depois de um breve período de independência, caiu em poder de Roma em 63 a.C. Com a morte de César, Herodes I o Grande conseguiu ser nomeado "rei dos judeus", sob protetorado romano. Seu reino foi dividido pelos romanos depois de sua morte, e Herodes Antipas ficou com a Galiléia e a Peréia. À época do nascimento de Jesus, a Galiléia era um conhecido foco da resistência judia contra Roma.

Nascimento e infância. Jesus nasceu em Belém, cidade da Judéia meridional, nos últimos anos do reinado de Herodes o Grande. Sua mãe Maria, era casada com José, carpinteiro de Nazaré, na Galiléia. Ambos haviam ido a Belém por causa de um recenseamento.
Herodes soube do nascimento de Jesus, considerado pelos magos como a chegada daquele que deveria ser o "rei dos judeus", ordenou uma matança de todas as crianças "em Belém e no seu território, todos os meninos de dois anos para baixo" (Mt 2:16). Mas José, pai terreno de Jesus, advertido em sonhos por um anjo, tomou o menino e sua mãe durante a noite e retirou-se para o Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes.
Com a morte de Herodes o Grande, José decidiu regressar com sua família e estabeleceu-se em Nazaré. Essa pequena aldeia achava-se num entroncamento de caminhos e era cruzada pelas caravanas que viajavam para o Oriente. Nela cresceu Jesus junto a Maria e José, a quem ajudava em seu trabalho artesanal.
Com relação à chamada "vida oculta" de Jesus, a referência mais explícita é a de Lucas, que menciona a visita da família a Jerusalém quando Jesus tinha 12 anos. Julgando que o menino estivesse na caravana, seus pais voltaram e andaram durante todo o dia, até que se decidiram a voltar a Jerusalém. Depois de três dias de busca, encontraram-no entre os doutores do Templo, ouvindo-os e interrogando-os. Todos quantos o ouviam ficavam impressionados com sua inteligência. "Ao vê-lo, ficaram surpresos, e a mãe lhe disse: 'Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos.' Ele respondeu: 'Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?" (Lc 2:48-49).
Quanto aos anos que mediaram entre esses acontecimentos e a vida pública de Jesus, o próprio Lucas limita-se a concluir: "Desceu então com eles para Nazaré, e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, conservava a lembrança de todos estes fatos em seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e diante dos homens." (Lc 2:52-53).

Vida pública. Costuma-se distinguir, na vida pública de Jesus, um primeiro período de "preparação". Os acontecimentos dessa época tiveram lugar no lapso compreendido entre o outono do ano 27, de acordo com os cálculos mais plausíveis, e a Páscoa do ano seguinte, e desenrolaram-se na Judéia e na Galiléia. Ainda de acordo com Lucas, Jesus tinha então cerca de trinta anos.
Na Judéia, encontrava-se João Batista, filho de Zacarias e parente de Jesus, que em toda a região do Jordão pregava o batismo de penitência para o perdão dos pecados. Jesus foi a seu encontro para também ser batizado, mas João, que o reconheceu como Messias, queria impedi-lo, dizendo: "Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?" (Mt 3:14). Os três evangelhos sinópticos relatam que, no momento do batismo de Jesus, abriu-se o céu e desceu sobre Jesus o Espírito Santo sob a forma de uma pomba, ao mesmo tempo em que uma voz proveniente das alturas dizia: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo".
Dentro do período de preparação contam-se o jejum no deserto, durante quarenta dias e quarenta noites; o testemunho de João Batista aos sacerdotes vindos de Jerusalém: "No meio de vós está alguém que não conheceis, aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar a correia da sandália." (Jo 1:26-27); e o episódio das bodas de Caná, primeira manifestação do poder divino de Jesus Cristo.
O primeiro ano da vida pública de Jesus foi assinalado por vários acontecimentos notáveis: a primeira expulsão dos mercadores do templo; o colóquio de Cristo com Nicodemos, notável fariseu, ao qual manifestou-se como Filho de Deus e anunciou sua morte na cruz; a prisão de João Batista; e o episódio da conversa com a mulher samaritana -- os judeus não se relacionavam com os samaritanos -- considerado pelos exegetas como um prenúncio da universalidade ecumênica do cristianismo.
Passou depois Jesus da Samaria à Galiléia, e ali deu começo a sua pregação. Rejeitado em Nazaré -- "nenhum profeta é bem recebido em sua pátria", disse Jesus na sinagoga --, transferiu-se para Cafarnaum, às margens do lago Tiberíades ou mar da Galiléia. Foi ali que aconteceu a "pesca milagrosa" e a vocação dos quatro primeiros apóstolos: Simão (Pedro), seu irmão André e os filhos de Zebedeu, Tiago e João. Esses quatro, mais Filipe e Natanael, haviam sido discípulos de João Batista, que lhes indicou Jesus como "o cordeiro de Deus" (Jo 1:29,35). Realizou nessa época vários milagres, entre eles o do paralítico de Cafarnaum, mencionado nos evangelhos sinópticos.
Durante o segundo ano de sua vida pública, Jesus completou o número dos 12 apóstolos, todos eles galileus. Também teve lugar por essa época o sermão da montanha ou das bem-aventuranças, um dos pontos mais altos da vida de Jesus (Mt 5-7; Lc 6). Nesse período foram narradas algumas das mais notáveis parábolas, com as quais Jesus transmitia sua doutrina ao povo, aos sacerdotes e a seus seguidores.
A partir de então, os acontecimentos se precipitaram. Herodes Antipas deu morte a João Batista, e teve lugar a multiplicação dos pães e dos peixes diante de cinco mil pessoas. Em seu terceiro ano de vida pública, Jesus ensinou no templo de Jerusalém e deu testemunho de si mesmo como a "luz do mundo" e o "bom pastor". Diante de Pedro, Tiago e de João, realizou o prodígio da transfiguração. Foi também nesse período que ressuscitou Lázaro e, por fim, na sua última Páscoa, entrou triunfante em Jerusalém.

Paixão e morte. A paixão de Jesus, desde a última ceia até a crucifixão e morte, é minuciosamente relatada pelos quatro evangelistas. Aprisionado no horto de Getsâmani, Jesus foi levado ante Anás, que era "pontífice naquele ano", e logo ante Caifás, o príncipe dos sacerdotes, com quem se haviam reunido os escribas e os anciões. Mais tarde, foi conduzido à residência do governador romano, Pôncio Pilatos, que o remeteu a Herodes Antipas. Por um gesto político de Herodes, foi devolvido a Pilatos, que, embora "não achasse delito nenhum" em Jesus, depois de fazê-lo açoitar, cedeu à pressão dos chefes de Israel e de uma multidão incitada por eles, e pronunciou a sentença da condenação de Jesus à morte na cruz, depois de declarar-se inocente de seu sangue.
De acordo com as leis romanas, Jesus foi flagelado e teve que carregar a cruz até a colina do Calvário. Ali foi crucificado junto com dois malfeitores comuns. Não se sabe o lugar exato em que se cumpriu a sentença, pois a destruição de Jerusalém no ano 70 arrasou todo possível vestígio. No momento da morte de Jesus, de seus seguidores só permaneciam mulheres e João, o evangelista. José de Arimatéia e Nicodemos pediram o corpo de Jesus e o enterraram no horto do primeiro. Na manhã do terceiro dia da morte de Jesus, o sepulcro apareceu vazio. Os relatos, diferentes em seus detalhes, coincidem em que a tumba foi encontrada vazia e que Jesus apareceu a várias pessoas e falou com elas. De acordo com Lucas, comeu um pedaço de peixe à vista dos discípulos assustados. Segundo os Atos dos Apóstolos, Jesus continuou assim a ensinar aos discípulos, em aparições ocasionais, durante quarenta dias após a ressurreição. Depois foi "elevado ao céu". Essa ascensão simboliza a vitória definitiva do Cristo sobre a morte, e seu poder universal. Não contradiz a promessa do ressuscitado: "E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos." (Mt 28:20).

Mensagem e significado. Para os cristãos, Jesus é Deus feito carne, a personificação da verdade, a revelação e o cumprimento das promessas de Deus. Mas Jesus era também homem, e por isso seus ensinamentos eram dotados de uma profunda preocupação com a realidade temporal da humanidade. Assim, Jesus honrou como divina a lei contida no Antigo Testamento, mas ensinou aos discípulos que se concentrassem nos dois preceitos fundamentais: o amor a Deus e o amor ao próximo. Seu nascimento, morte e ressurreição significavam o início do reino de Deus, que deveria ser, acima de todo esforço humano, um desígnio divino. Assim, os ensinamentos de Jesus podem ser resumidos em dois pontos fundamentais: a exortação a uma vida justa e piedosa e a exaltação da onipotência divina como instância superior aos atos humanos.
A importância teológica da humanidade de Cristo foi enfatizada por santo Agostinho de diversas formas: a humanidade de Jesus Cristo mostrava como Deus elevava o humilde; indicava a conexão entre a natureza física dos homens e a natureza espiritual; e era a fundação de uma humanidade renascida, criada de novo em Cristo como o fora a antiga em Adão. Posteriormente, a tendência de diversas heresias a enfatizar o caráter humano de Cristo fez com que as diferentes igrejas cristãs tendessem sobretudo, sem esquecer o aspecto humano, a ressaltar a divindade de Jesus. Mas a fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, implica a aceitação do mistério de sua dupla natureza, divina e humana, que não se confundem mas estão indissoluvelmente unidas.

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